Escrever um roteiro é criar uma linha de raciocínio
Irmão, quando você vai contar uma história através de um vídeo, de uma carta, de um e-mail ou até de um sinal de fumaça, para a pessoa entender exatamente onde você quer chegar, você precisa seguir uma linearidade.
E como a gente faz isso no YouTube? Através do roteiro. Da organização das ideias, da sintetização das informações e das associações entre um assunto e outro.
Eu vou aprofundar cada uma dessas partes nas próximas aulas. Mas como eu sei que quem entrou na Próxima Peça já está com vontade de fazer vídeo logo, essa aula vai ser um geralzão para você já conseguir escrever um roteiro, postar o vídeo e mandar no grupo.
O roteiro começa antes do roteiro
Quando você chegar na etapa de escrever o roteiro, a sua thumbnail já precisa estar pronta.
Na verdade, você já deve ter a thumbnail, o título e a ideia do vídeo definidos antes mesmo de começar a escrever. Isso tudo vem antes da produção, porque, como eu expliquei nas aulas anteriores, é a ideia que dá tração para o vídeo.
Se você ainda não é um criador grande, não é o seu nome que vai carregar o vídeo. É a força da ideia e da experiência que você consegue criar para quem assiste.
A intro é a parte mais importante do vídeo
Existe um motivo para você já ter a thumbnail e o título prontos antes de escrever.
Eles vão determinar o que precisa ser entregue logo na introdução. A intro é a parte mais importante do vídeo. Foi uma coisa que aprendi tanto lendo Como Escrever Bem quanto estudando roteiro.
Quando você escrever a introdução, pense no seguinte: se você tivesse apenas um minuto para explicar toda a ideia do vídeo para alguém, o que você diria? Esse é o papel da intro.
Entregue a essência logo no começo
Imagina que o seu vídeo inteiro é um coração.
A introdução é um coração menor que representa o vídeo inteiro em miniatura. Ela entrega a essência daquilo que você quer passar. As ideias mais importantes aparecem ali.
Não é por acaso que é justamente nesse ponto que mais pessoas abandonam um vídeo. Se você conseguir fazer menos gente sair no começo, automaticamente muito mais pessoas vão permanecer até o final.
Quanto maior essa retenção inicial, mais o YouTube entende que aquele vídeo merece ser recomendado para outras pessoas.
Pequenas melhorias geram grandes resultados
Pensa em cem pessoas entrando no seu vídeo.
Se sessenta saem logo no começo, só quarenta continuam assistindo. Agora imagina que você melhora a introdução e apenas vinte pessoas vão embora. Oitenta continuam vendo o vídeo.
Foi exatamente isso que o MrBeast comentou. Segundo ele, muitas vezes a diferença entre um vídeo de dez milhões e um de duzentos milhões de visualizações está justamente em pequenas melhorias na retenção inicial.
Por isso a intro precisa entregar a nata do seu conteúdo. É ali que você coloca o melhor que tem.
O trabalho do roteirista é sintetizar informação
Agora falando da escrita do roteiro em si.
O trabalho de um roteirista é sintetizar informação. Se você é youtuber, você também é roteirista.
Você pega uma ideia, pesquisa vídeos, livros, podcasts, artigos e todas as fontes possíveis. Depois separa aquilo que realmente importa do que é apenas informação descartável.
É como se você colocasse tudo dentro de um balde de água. O lixo afunda. O que boia é aquilo que realmente vale a pena colocar no vídeo.
Procure a nata do conteúdo
Eu gosto de usar uma analogia para explicar isso.
Quando eu trabalhava na indústria de laticínios, durante a pasteurização do leite, a nata ficava em cima. Posso estar falando alguma besteira técnica, mas a ideia é essa: a parte mais rica do leite sobe para a superfície e é usada para fazer manteiga, queijo e outros produtos.
Com informação acontece a mesma coisa. Existe um mundo inteiro de conteúdo sobre qualquer tema, mas só uma pequena parte realmente importa. O trabalho do roteirista é encontrar essa nata e transformar ela em um vídeo.
Simplifique ao máximo
Uma das primeiras coisas que eu quero adiantar das próximas aulas é essa: simplifique.
Não use palavras difíceis só para parecer inteligente. As pessoas sentem quando alguém está tentando parecer algo que não é.
Às vezes eu bato o olho em um vídeo e, só pelo jeito que a pessoa fala, parece que ela copiou um texto da internet e está apenas lendo. Falta verdade.
Por isso eu não tiro o “tá ligado”, o “mano” e o meu jeito de falar dos vídeos. Se eu fizesse isso, perderia a minha voz.
Escreva primeiro, julgue depois
Outra dica importante é não se julgar enquanto estiver escrevendo.
Quando eu estava fazendo o roteiro do vídeo sobre o Kaneki, por exemplo, me veio na cabeça uma conversa que tive com uma mulher evangélica que apareceu aqui no portão de casa.
Aquilo surgiu do nada. Eu nem sabia se ia usar, mas escrevi mesmo assim. Quando uma ideia aparecer, coloca no papel. Depois você decide se ela permanece ou não.
Primeiro deixa o conteúdo fluir. A lapidação vem depois.
Respeite o tempo de quem assiste
Depois que você organizou todas as ideias, começa a simplificar.
Pergunte para si mesmo se cada trecho realmente precisa estar no vídeo. Uma frase do MrBeast que eu gosto muito é que um vídeo deve ter exatamente o tamanho que precisa ter. Nem mais, nem menos.
Você precisa respeitar o tempo do viewer.
A pessoa clicou na thumbnail porque espera encontrar alguma coisa. Então entregue aquilo o mais cedo possível, principalmente na introdução.
Expanda a ideia apresentada na intro
Depois que você escreveu uma boa introdução, surge uma dúvida natural.
Se eu já entreguei a ideia principal na intro, o que sobra para o resto do vídeo?
A resposta é simples: você expande.
Você apresenta uma ideia geral logo no começo e, durante o vídeo, vai aprofundando cada uma dessas partes. A introdução mostra o mapa. O restante do conteúdo percorre esse caminho.
Um assunto precisa puxar o próximo
Cada bloco do roteiro deve levar naturalmente ao seguinte.
Você termina um parágrafo falando de um assunto e a última frase já prepara o terreno para o próximo tópico.
Foi uma coisa que aprendi lendo Como Escrever Bem: a última frase de um parágrafo funciona como um gancho para a primeira frase do próximo.
Não pode parecer que um assunto terminou completamente e outro começou do nada. Tudo precisa estar conectado.
Faça o leitor querer continuar
Quando um bloco termina, o próximo precisa parecer uma continuação natural.
Você pode terminar dizendo, por exemplo: “E foi por isso que eu percebi uma das coisas mais importantes de Blue Lock: a competição.”
Pronto. Automaticamente o próximo bloco começa falando sobre competição.
É esse tipo de transição que mantém o viewer interessado. Uma ideia puxa a outra e a pessoa continua assistindo quase sem perceber.
Estude constantemente
Agora surge outra pergunta.
De onde vêm todas essas informações para escrever um roteiro?
Uma frase do Lutz que eu gosto muito é: “Siga a curiosidade.”
É exatamente isso que eu faço. Todas as lições que eu tiro dos animes nasceram porque eu era naturalmente curioso sobre aqueles assuntos.
Mesmo quando você não estiver pesquisando um vídeo específico, continue estudando. Leia livros, veja podcasts, faça cursos, escute pessoas inteligentes.
Sempre que ouvir alguma ideia boa, salva.
Siga a sua curiosidade
Uma coisa que o Lutz fala, e que eu concordo completamente, é: siga a sua curiosidade. Faça conteúdo sobre aquilo que você realmente gosta de aprender. É exatamente assim que eu trabalho. Todas as lições que eu tiro dos animes nasceram porque eu era naturalmente curioso sobre aqueles temas. Eu queria entender aquelas ideias mesmo antes de pensar em fazer um vídeo sobre elas.
Mesmo quando você não estiver pesquisando para um vídeo específico, continue absorvendo conteúdo. Leia livros, assista a podcasts, escute pessoas inteligentes e estude assuntos que despertam a sua curiosidade. Quanto mais você alimenta a sua mente, mais repertório você constrói para usar quando surgir uma nova ideia de vídeo.
Crie um banco de ideias
Sempre que alguém falar alguma coisa interessante, salva. Pode ser uma frase de um podcast, um trecho de um livro ou uma reflexão que apareceu durante um treino. Tenha um grupo no WhatsApp só para você, um bloco de notas ou qualquer lugar onde possa guardar essas referências. Você nunca sabe quando elas vão se encaixar perfeitamente em um roteiro.
Às vezes você está escrevendo um vídeo e lembra que estudou exatamente aquele assunto dois meses atrás. Aí é só abrir suas anotações e encontrar um exemplo, uma citação ou até uma estrutura inteira que já estava praticamente pronta. Isso economiza muito tempo e deixa seus roteiros muito mais ricos.
Transforme tudo em anotações
Uma coisa que eu faço quase todos os dias é consumir conteúdo das comunidades das quais participo. O cara fala uma frase interessante e eu já penso: “Isso aqui daria um vídeo.” Então eu salvo imediatamente. Não fico confiando na memória porque sei que provavelmente vou esquecer depois.
Foi exatamente assim que aconteceu com a citação do David Goggins que usei no vídeo de Blue Lock. Eu ouvi essa frase em uma aula dentro de uma comunidade, anotei no mesmo momento e joguei no meio das minhas ideias. Naquela hora eu nem sabia onde ela seria usada. Só mais tarde, durante a lapidação do roteiro, percebi que ela funcionaria muito melhor no final do vídeo.
Estude e escreva constantemente
O importante é estar sempre aprendendo alguma coisa. Vá salvando essas ideias, organizando tudo em um texto ou resumindo aquilo que você estudou. É isso que eu faço com aulas, podcasts e vídeos. Eu escrevo resumos de praticamente tudo, porque escrever também é uma forma de aprender.
Você precisa estar constantemente absorvendo informação e constantemente escrevendo. É assim que você desenvolve repertório e melhora sua escrita ao mesmo tempo. Existe aquela frase clássica: para fazer uma coisa bem, faça ela mil vezes. Com roteiro não é diferente.
Organize as ideias antes de escrever
Depois de definir qual será o tema do vídeo, escreva um ou dois parágrafos resumindo a grande ideia que você quer transmitir. Essa é uma técnica que eu aprendi estudando roteiro. A partir dessa ideia principal, você consegue identificar quais serão os tópicos que precisam aparecer no vídeo.
Hoje eu ainda não faço exatamente desse jeito. Normalmente eu sinto vontade de falar sobre um assunto, começo a pesquisar, escrevo tudo o que encontro e só depois organizo. Mas estou sempre testando métodos diferentes. Se eu descobrir uma forma melhor de trabalhar, eu compartilho com vocês.
Pense no roteiro como um livro
É só você pensar em alguém que vai escrever um livro. Essa pessoa não começa escrevendo a primeira página e segue até o final sem planejamento. Antes de tudo, ela define qual é a ideia central do livro. Depois organiza os grandes blocos que vão compor a obra e só então começa a desenvolver cada um deles.
No YouTube funciona da mesma forma. Você define a ideia principal do vídeo, separa os tópicos que serão abordados e pesquisa cada um deles. Quando todas essas informações estiverem reunidas, fica muito mais fácil organizar tudo dentro de uma estrutura lógica.
Escreva sem julgamento e organize depois
Depois que você já pesquisou tudo o que precisava, organize os tópicos na ordem em que eles vão aparecer no vídeo e comece a escrever. Nesse momento, não fique preocupado se o texto está bonito ou perfeito. Apenas coloque as ideias no papel.
A lapidação acontece depois. Você vai relendo, reorganizando, mudando frases de lugar e refinando a escrita. O importante é primeiro tirar as ideias da cabeça. Só depois você transforma aquele rascunho em um roteiro realmente bom.
Leia o roteiro em voz alta
Uma dica que ajuda muito é ler o roteiro em voz alta.
Quando você escuta o próprio texto, fica muito mais fácil perceber se alguma frase está estranha, se alguma ideia ficou confusa ou se determinada parte parece artificial. Muitas vezes um trecho parece perfeito enquanto está escrito, mas, quando você fala em voz alta, percebe imediatamente que ele não funciona.
Essa leitura também ajuda a encontrar palavras repetidas, frases longas demais e transições que poderiam ficar mais naturais.
Faça um parágrafo puxar o outro
Depois que os blocos estiverem organizados, continue lapidando o texto e lembre sempre de uma regra importante: a última frase de um parágrafo precisa servir de gancho para a primeira frase do próximo.
Imagine que você termina um parágrafo explicando por que as bolas são redondas. A próxima parte pode começar mostrando como as indústrias adotaram esse formato por questões de custo, eficiência ou qualquer outro motivo relacionado ao assunto. O importante é que o leitor sinta que uma ideia naturalmente levou à seguinte.
Quando você escreve dessa maneira, o viewer continua assistindo porque tudo faz sentido. Ele não sente que o vídeo está pulando de um assunto para outro sem conexão.
O final também precisa ser memorável
Quando você chega ao final do roteiro, precisa dar a mesma atenção que deu para a introdução.
Se a intro é a parte mais importante do vídeo, o encerramento precisa ser a segunda melhor parte. É nele que você coloca o insight mais forte, a reflexão mais marcante ou uma citação que realmente tenha impacto na mente de quem está assistindo.
Foi exatamente por isso que eu terminei o vídeo de Blue Lock com a frase do David Goggins. Depois de estudar bastante sobre escrita, percebi que a última frase é a que permanece por mais tempo na cabeça de quem terminou de assistir ao vídeo.
Termine com algo que fique na cabeça
Não finalize o vídeo simplesmente dizendo: “Então é isso, galera. Muito obrigado. Se inscreve no canal e até a próxima.”
Você precisa ter em mente que a última frase é a que mais reverbera na cabeça de quem assistiu. Foi uma das coisas que aprendi lendo Como Escrever Bem. A última impressão é a que permanece por mais tempo, então ela precisa carregar força.
Por isso, tente encerrar com um insight, uma reflexão ou uma frase curta que desperte algum sentimento. Ela precisa colocar uma engrenagem para girar dentro da cabeça da pessoa depois que o vídeo terminar.
Gere uma emoção no encerramento
Mesmo que o objetivo do seu canal não seja fazer vídeos motivacionais, o final ainda precisa provocar alguma coisa.
Vamos supor que você seja médico e produza conteúdo para conscientizar as pessoas sobre a importância de fazer exames preventivos. A última frase pode despertar preocupação, urgência ou responsabilidade. O importante é que ela faça a pessoa pensar depois que o vídeo acabar.
Quanto menor e mais direta for essa frase, maior tende a ser o impacto. Frases curtas costumam ter muito mais força do que explicações longas.
Nunca termine resumindo o vídeo
Outra coisa muito importante: não termine resumindo tudo o que você acabou de falar.
O viewer não é burro. Ele acabou de assistir ao vídeo inteiro. Se ele chegou até o final, significa que acompanhou toda a construção que você fez. Não existe motivo para repetir tudo novamente em poucos segundos.
Se a pessoa quiser rever alguma parte, ela pode simplesmente voltar o vídeo. Inclusive já aconteceu de comentarem que estavam assistindo um dos meus vídeos pela sétima vez. Então confie que quem chegou até o final entendeu a mensagem.
O resumo destrói a construção emocional
Imagina o vídeo de Blue Lock.
Se, em vez de terminar do jeito que eu terminei, eu simplesmente falasse: “Então resumindo, seja mais egoísta, continue melhorando, observe as pessoas e dependa também da sorte”, eu destruiria toda a construção emocional que aconteceu durante o vídeo.
Passei vários minutos criando uma sequência de ideias, sentimentos e reflexões para, no final, entregar uma conclusão marcante. Se eu resumisse tudo logo depois, seria como jogar toda essa construção no lixo.
O melhor final é aquele que surpreende
Na minha visão, o melhor encerramento é aquele que a pessoa não espera.
Ela está assistindo normalmente, acompanhando o raciocínio, e, de repente, o vídeo termina exatamente na frase que precisava terminar. Não existe uma despedida longa nem uma explicação desnecessária. Simplesmente acabou.
Esse tipo de final costuma deixar muito mais impacto do que aqueles encerramentos tradicionais em que o criador continua falando depois que a mensagem principal já foi entregue.