IA para escrita
Recentemente eu usei IA para me ajudar a escrever um roteiro, mas não é do jeito que vocês estão pensando. Eu vou chegar nesse ponto em breve na aula e ensinar vocês, porque muita gente escreve roteiro com IA do jeito errado. Por isso, acabam perdendo o principal valor que você recebe por escrever um roteiro. E também vou mostrar como fazer isso do jeito certo.
O problema de deixar a IA escrever por você
Qual é o problema de chegar na IA e pedir:
“Escreva um roteiro para mim sobre tal coisa. O roteiro deve ser feito para viralizar.”
Cara, eu não tenho nada contra pessoas que têm canais com roteiros feitos exclusivamente por IA. Só que não é uma coisa que eu faria. Talvez algum dia eu faça, mas seria em algum canal no qual eu não colocaria coração nenhum, um canal feito apenas para ganhar dinheiro. Não vou dizer que nunca faria.
Mas, quando você terceiriza a escrita do roteiro para a IA, perde a principal coisa que poderia ganhar escrevendo um roteiro. E não é o dinheiro que você ganha com o vídeo. É o fato de entender aquilo sobre o que está falando.
Quando você escreve, quando pensa no que vai escrever, é obrigado a colocar aquilo em palavras. É obrigado a pesquisar, ir atrás das informações e selecionar as melhores.
Cara, eu vi vinte informações para fazer esse vídeo. Cinco eram muito boas; o resto era chato, o resto era inútil. E você coloca no roteiro apenas as informações que realmente achou boas.
Isso, por si só, aumenta muito a probabilidade de o vídeo ficar bom, porque você vai ter um conteúdo interessante ali dentro. Posteriormente, quando alguém perguntar sobre aquele assunto, você vai saber responder, porque foi você quem pensou naquilo. Saiu de você.
Você leu, consumiu conteúdo para ter ideias, estudou para escrever. Mas foi você quem escreveu e foi você quem pensou. O fato de colocar aquilo no papel faz com que aquilo precise sair do seu cérebro. Só isso já reforça as conexões neurais daquelas informações e mantém o conteúdo mais fresco na memória.
É uma forma de estudar. Igual eu falei no vídeo do Blue Lock: aprender ensinando. Ensinar é uma das melhores formas de aprender.
Cara, por exemplo, no vídeo das cinco personalidades, era um assunto que eu estava olhando por cima e queria estudar. Pensei:
“Por que não fazer um vídeo sobre isso?”
Fui lá, fiz o vídeo e pronto.
No fim das contas, ele serviu mais para eu entender o assunto do que qualquer outra coisa.
Você perde sua voz
O problema de fazer um roteiro completamente por IA, querendo poupar tempo, fazer rápido e terminar logo, é que você não vai ter voz.
Como já falei em várias aulas, a IA vai ter voz através de você.
Quando uma pessoa te encontrar na rua, quando você for famoso ou for participar de algum podcast, cara… não vai ser você. As pessoas vão perceber que não foi você quem fez aquilo. Foi uma inteligência artificial.
Mesmo que você diga:
“Escreva com a minha voz.”
Ou envie seus roteiros para ela aprender seu estilo.
Você ainda não vai saber o que está no seu roteiro. Não vai saber exatamente o que falou.
Você acha que vai entender o assunto com a mesma profundidade que entenderia se tivesse pensado naquilo?
Só se você mandar:
“Escreva um vídeo sobre a Segunda Guerra Mundial com a minha voz.”
Depois você lê.
Na segunda semana já não lembra praticamente nada do vídeo.
Todo vídeo que eu faço eu lembro de quase tudo que falei, simplesmente porque fui eu quem “pariu” aquele assunto.
Eu estudei, consumi conteúdo, coloquei tudo para fora no texto, reescrevi, organizei minhas anotações e construí aquele roteiro.
É por isso que retenho essas informações.
O fato de você poder perguntar qualquer coisa para o ChatGPT não torna você inteligente.
Se alguém perguntar alguma coisa sobre um vídeo seu e o roteiro foi escrito pela IA, o que você vai fazer?
“Espera aí, deixa eu perguntar para quem escreveu.”
Vai abrir o ChatGPT e perguntar:
“A pessoa está me perguntando tal coisa do vídeo. Eu não lembro.”
Cara, você precisa pensar nos seus vídeos. Precisa pensar. Pelo menos escrever com as suas palavras.
Como eu realmente usei a IA
Agora, como foi que eu usei a IA no meu roteiro?
Simples.
Vou mostrar duas maneiras.
No meu vídeo sobre pais sensatos, que é A desvantagem brutal de ter pais ruins, chegou uma hora em que eu tinha muita anotação guardada. Muita coisa que eu ia escrevendo conforme vinha a inspiração. Eu lia alguma coisa, achava interessante e já escrevia um parágrafo.
Eu nem sabia onde aquilo ia ficar no texto. Eu só sabia que precisava escrever aquilo, então ia lá, escrevia e deixava salvo.
Só que, com o tempo, uma coisa pode acontecer e assustar você, fazendo até abandonar o processo de escrever roteiro: ter muitas anotações e não saber como organizá-las.
Foi aí que eu usei a IA.
Peguei todas as minhas anotações, joguei na IA e perguntei:
“Chat, eu vou te dar as anotações que estou fazendo para o meu próximo vídeo. O vídeo é sobre tal assunto. Não é para você escrever o roteiro para mim. Quero apenas que me diga, com base nas minhas anotações, quais são os principais pontos do vídeo que estou fazendo.”
Por quê?
Porque a IA tem uma visão de fora daquilo em que você está prestando mais atenção enquanto faz as anotações.
Ela falou um monte de besteira também. Quando eu escrevo, geralmente escrevo muito mais sobre mim do que sobre o tema. Depois, no vídeo final, eu tiro quase todas essas partes pessoais.
Ela chegou a dizer que um dos principais blocos do vídeo era sobre como a raiva de não ter talento era a origem da minha garra na infância. Mas não era.
Mesmo assim, ela me deu dez tópicos que apareciam nas minhas anotações.
Depois eu perguntei:
“Se esse vídeo tivesse apenas quatro tópicos principais, quais seriam?”
Eu já tinha uma ideia do que queria falar, mas ainda não sabia em que ordem colocar tudo.
Ela respondeu com alguns tópicos que não faziam sentido, mas acertou três coisas importantes:
- explicar primeiro o que é garra;
- falar sobre atividade difícil;
- falar sobre cultura.
A partir disso, tive uma ideia de como organizar o texto.
Então fui para o meu roteiro e escrevi:
- Introdução;
- Explicar o que é garra;
- Estilos parentais, que era toda a parte teórica do vídeo;
- Como construir garra quando você não teve um pai e uma mãe que favoreciam isso;
- Cultura;
- Atividade difícil.
Foi assim que organizei o roteiro.
Confie no seu material
“Ah, Grity, mas isso aí você já não tinha pronto na Big Idea?”
Sim.
Eu já tinha uma ordem inicial do que iria pesquisar.
Só que acontece uma coisa que o William Zinsser fala:
“Confie no seu material e deixe ele te levar para onde ele quer te levar.”
Cara, se durante a pesquisa desperta minha curiosidade sobre alguma coisa, eu vou atrás.
Se aquilo é interessante para mim, provavelmente também vai ser interessante para o viewer.
Mesmo que na minha Big Idea estivesse definido que o vídeo seria sobre isso, isso e isso, às vezes eu descubro outras coisas no meio da pesquisa e quero incluí-las.
Muitas vezes o vídeo final fica bem diferente da ideia que eu tinha quando comecei.
Quando essa curiosidade toma conta de mim, vou pesquisando tudo o que quero entender. O problema é que as anotações acabam ficando embaralhadas.
Foi justamente para isso que usei a IA: para olhar tudo aquilo que eu tinha anotado e dizer quais pareciam ser os principais tópicos.
Eu usei um prompt mais ou menos assim:
“Vou te mandar algumas anotações para um roteiro que estou fazendo e quero que você me diga quais são os pontos principais das minhas anotações.”
Depois enviei todas as anotações e também partes do roteiro que já estavam escritas.
Ela respondeu com dez pontos principais.
Alguns faziam sentido.
Outros não.
Por exemplo, ela separou coisas que, para mim, pertenciam ao mesmo bloco. Segurança, exigência e modelagem pelo exemplo, por exemplo, para mim fazem parte de um único tópico: a ciência da parentalidade.
Ela também colocou a chamada final como se fosse um bloco principal, quando, na verdade, é apenas o encerramento do vídeo.
Mesmo assim, só o fato de ela separar tudo aquilo me deu um norte.
Lendo a resposta dela, eu mesmo consegui organizar os blocos do vídeo na minha cabeça.
A IA não é Deus
Uma coisa importante:
A IA não é Deus.
Ela não é uma entidade suprema que está sempre certa.
Isso eu aprendi com Alex Hormozi.
Você precisa tratar a IA como trataria qualquer outra pessoa dando uma opinião.
Se uma pessoa desconhecida chegar hoje e disser que você deveria fazer vídeos sobre um assunto que você não quer fazer, você vai mudar completamente seu canal por causa disso?
Não.
Você agradece a opinião e continua fazendo aquilo que acredita.
Com a IA é a mesma coisa.
Ela fala muita besteira.
Aqui eu usei a IA apenas para me dar uma visão geral de tudo o que eu tinha escrito.
Depois de ler a resposta, eu mesmo consegui perceber quais eram meus quatro tópicos principais e organizei tudo dentro deles.
Só então escrevi o roteiro de verdade, do meu jeito.
IA para reescrita
Outra forma de usar a IA é durante a reescrita do roteiro. Você pode jogar o roteiro lá e perguntar onde está sendo prolixo, onde está se repetindo. Isso é, basicamente, reescrita. Você não está pedindo para ela reescrever seu roteiro; está pedindo para mostrar onde você está sendo repetitivo e prolixo. E, de novo, você não precisa levar a resposta como a voz de Deus.
Para mostrar isso para vocês, fiz um teste com um roteiro meu que já estava gravado e publicado no canal. Eu disse:
“Chat, vou te mandar um roteiro e quero que você aja como um editor. Não altere meu texto. Reconheça lugares onde fui repetitivo, prolixo, onde não deixei algo muito claro e onde eu poderia alterar a ordem das frases para gerar mais impacto.”
Depois expliquei exatamente como queria receber essa análise:
“Após o trecho em que cometi um desses erros, abra um colchete. Dentro do colchete, aponte o erro, sugira uma solução, feche o colchete e continue meu texto. Quero que me devolva um roteiro cheio de colchetes, mostrando cada ponto de melhora, cada lugar onde eu poderia ter sido mais claro e cada lugar onde eu poderia ter usado uma palavra mais curta.”
Também enviei um exemplo do que eu queria. Esse exemplo era um texto de um aluno do curso de escrita do William Zinsser, autor do livro Como Escrever Bem, já corrigido e cheio de comentários entre colchetes. Era exatamente esse tipo de correção que eu queria que a IA fizesse no meu roteiro.
Antes de enviar o texto, ainda perguntei:
“Chat, entendeu o que eu quero que faça?”
Ele respondeu que sim. Disse que manteria 100% do meu texto original, sem reescrever frases, resumir, cortar trechos ou alterar meu estilo. Apenas acrescentaria comentários entre colchetes, exatamente como no exemplo do Zinsser.
Depois ele começou a listar as coisas que procuraria: repetição, prolixidade, falta de clareza, ordem fraca de frases, palavras longas, transições fracas, argumentos não sustentados e outros pontos. Só que aí ele já começou a fazer coisas que eu não tinha pedido. Isso me dá nos nervos.
Então eu perguntei:
“Argumentos não sustentados e problemas de retenção são falhas de escrita?”
Ele respondeu que não necessariamente. Depois eu ajustei o pedido e falei:
“Faça primeiro a análise com colchetes, igual ao Zinsser. Depois, fora do meu texto, você pode sugerir esses outros pontos.”
Mesmo pedindo uma análise da escrita, a IA ainda queria escrever o roteiro para mim.
Ela finalmente entendeu melhor o que eu queria e começou a analisar o roteiro. Ainda assim, fazia muitos elogios. Em algumas partes, porém, realmente encontrou repetições e problemas de escrita. Também é verdade que esse roteiro já tinha passado por todo o processo de reescrita que ensino nas aulas de escrita avançada, então era natural que ela encontrasse pouca coisa para corrigir.
Por exemplo, ela identificou que eu repeti a palavra “garra” duas vezes na mesma frase. Isso realmente poderia ser alterado. Já em outro momento, ela disse que uma chamada para outro vídeo quebrava o fluxo principal do argumento. Isso, para mim, era besteira. Eu quis colocar aquela chamada ali e mantive exatamente daquele jeito. O roteiro é meu.
Em outro trecho ela percebeu que eu repetia a palavra “Kaiser” na mesma frase, deixando a leitura pesada. Esse tipo de observação é útil. Depois que você termina de reescrever seu roteiro, pode jogar o texto na IA, ver esse tipo de comentário e decidir se vale a pena alterar ou não. Mas não leve tudo ao pé da letra. A IA não é Deus. Você continua tendo a palavra final sobre o seu roteiro.
A IA é uma ferramenta
Qual é a conclusão?
A IA é uma ferramenta. Você precisa usá-la para melhorar o seu processo. Eu usei a IA para organizar minhas ideias, não para escrever minhas ideias por mim. Se eu quisesse que ela escrevesse tudo, faria um canal sem mostrar meu rosto, colocaria um boneco falando por mim e deixaria a IA produzir todo o conteúdo.
Mas eu apareço no meu canal e quero falar as minhas ideias. A IA me ajuda a organizar o pensamento, identificar repetições e pesquisar conceitos. Quando fiz o vídeo sobre a sombra, por exemplo, li capítulos de Jung que eram muito difíceis de entender. Depois de cada trecho, perguntava para o ChatGPT o que o autor queria dizer. Aos poucos fui entendendo a linguagem do Jung, como se estivesse aprendendo uma nova língua.
É para isso que a IA serve. Ela ajuda na pesquisa, ajuda a organizar ideias e ajuda a deixar a informação mais clara na sua cabeça. Quem escreve o roteiro continua sendo você. A não ser que seu objetivo seja criar um canal totalmente feito por IA. Como eu estou documentando o meu processo de criação, esse é o jeito que eu uso a IA. Fechou? Tamo junto.