O estilo da sua escrita
A próxima peça que vamos encaixar no quebra-cabeça de como escrever um bom roteiro é o estilo.
Se a gente levar a simplificação ao extremo, corre o risco de escrever frases como: “Lucas estudou.” “Cachorro gosta de carne.” “Marcelo foi embora.” Tudo fica tão simples que parece um livro de alfabetização. A pergunta é: depois de cortar tantos excessos, ainda sobra alguma coisa de você no texto? A resposta é sim.
O exemplo da carpintaria
O autor compara a escrita ao trabalho de um carpinteiro.
Todas as técnicas que vimos até agora — simplificar palavras, cortar excessos e deixar apenas o essencial — são apenas ferramentas. Assim como um carpinteiro usa serra, plaina e lixa para retirar o excesso da madeira, você usa essas técnicas para retirar tudo aquilo que não fortalece sua mensagem.
Mas isso não impede que a obra continue sendo sua. Pelo contrário. É justamente quando o excesso desaparece que a sua voz aparece com mais clareza.
Estilo não é um enfeite
Muita gente acredita que estilo é algo que se adiciona depois que o texto está pronto.
Como se você terminasse o roteiro e, só então, começasse a colocar referências, frases bonitas ou histórias pessoais apenas para deixá-lo mais interessante.
Não funciona assim.
Adicionar estilo depois que a obra está pronta é como pegar um tabuleiro de xadrez perfeitamente funcional e começar a colar enfeites nele. Ele continua sendo um tabuleiro de xadrez, mas agora está cheio de coisas que não ajudam no propósito principal.
O estilo já está em você
O estilo não é uma camada extra.
Ele é consequência da forma como você pensa, escreve e se comunica. Se você deixar as palavras fluírem naturalmente, o seu estilo já estará presente no texto.
Você não precisa parar no meio do roteiro para pensar: “Agora vou colocar um pouco mais da minha personalidade aqui.”
Ela já está ali.
Não tente parecer outra pessoa
Quando alguém tenta fabricar um estilo, normalmente o resultado soa artificial.
É como colocar uma peruca. As pessoas percebem que aquilo não é natural. Em vez de transmitir autenticidade, transmite esforço para parecer alguém diferente.
Os criadores que mais se destacam normalmente viralizam justamente porque são eles mesmos. O jeito de falar, o humor, as histórias e até os defeitos fazem parte da identidade deles.
Relaxe e tenha confiança
O seu estilo aparece naturalmente quando duas coisas acontecem: você relaxa e confia em si mesmo.
Parece simples, mas escrever costuma provocar exatamente o efeito contrário. Você encara uma página em branco e começa a imaginar como o vídeo ficará quando estiver pronto, quantas pessoas vão assistir e se ele será bom o suficiente.
Essa preocupação trava a escrita antes mesmo da primeira frase.
Pare de pensar no vídeo pronto
Se desligue completamente da ideia do vídeo final.
Não tente impressionar ninguém enquanto estiver escrevendo. Seu único objetivo nesse momento é colocar ideias no papel.
Depois você melhora.
Agora, apenas escreva.
Os primeiros parágrafos sempre serão ruins
Existe uma boa chance de que os primeiros parágrafos fiquem ruins.
Eles costumam soar robóticos, artificiais e sem personalidade. Isso é completamente normal.
Conforme você continua escrevendo, normalmente lá pelo terceiro ou quarto parágrafo começa a relaxar. A escrita fica mais natural e a sua voz começa a aparecer no texto.
O mesmo acontece durante a gravação. Nos primeiros minutos você ainda está apenas lendo o roteiro. Depois de alguns minutos falando, começa a soar como você mesmo.
Escreva na primeira pessoa
Outra forma de relaxar durante a escrita é usar bastante a primeira pessoa.
Fale de você. Use a palavra “eu” sem medo. As pessoas tendem a escrever de forma muito mais natural quando estão contando uma experiência própria do que quando tentam parecer impessoais ou excessivamente formais.
Nesse momento, não se preocupe em deixar o texto pronto para publicação. O objetivo é apenas colocar as ideias para fora da maneira mais espontânea possível.
Quem é você para falar?
Talvez você pense: “Quem sou eu para dar conselhos?”
Eu mesmo já pensei isso várias vezes. Enquanto escrevia alguns vídeos, me perguntava quem eu era para ensinar alguma coisa para outras pessoas. Talvez existisse alguém muito mais preparado para falar daquele assunto.
Mas existe uma pergunta melhor para fazer.
Quem é você para não falar?
Em vez de perguntar quem você é para compartilhar suas ideias, pergunte quem você é para escondê-las.
Só existe uma pessoa no mundo que viveu exatamente as experiências que você viveu. Ninguém passou pelas mesmas situações, conheceu exatamente as mesmas pessoas ou resolveu os problemas da mesma forma que você.
Pode parecer clichê, mas é verdade: a sua combinação de experiências é única.
Suas experiências têm valor
Você possui problemas, soluções e aprendizados que ninguém mais possui exatamente da mesma maneira.
Mesmo que outra pessoa domine o mesmo assunto, ela vai enxergá-lo por outro ângulo. É justamente essa perspectiva diferente que torna um criador interessante.
As pessoas não procuram apenas informação. Elas procuram uma forma diferente de enxergar aquela informação.
As pessoas ligam para boas ideias
Talvez você ache que ninguém liga para a sua opinião.
Na realidade, as pessoas ligam quando você diz algo interessante e útil. Se o seu conteúdo ajuda alguém, faz alguém refletir ou simplesmente diverte durante alguns minutos, ele já possui valor.
Até mesmo um vídeo de entretenimento é útil quando consegue fazer alguém rir ou esquecer dos problemas por um instante.
Confiança chama atenção
Pense na quantidade de pessoas desconhecidas que aparecem no seu feed todos os dias.
Às vezes você nunca viu aquela pessoa antes, mas para para escutá-la simplesmente porque ela fala com confiança. A convicção desperta curiosidade.
Antes mesmo de avaliar se ela está certa ou errada, você sente vontade de descobrir por que ela acredita tanto naquilo que está dizendo.
Depois você adapta o texto
Durante o primeiro rascunho, escreva em primeira pessoa.
Use “eu”, conte experiências e escreva exatamente como você pensaria falando com um amigo. Depois, durante a reescrita, você decide se quer transformar alguns trechos em segunda ou terceira pessoa.
Mas, no começo, permita que a sua voz apareça naturalmente.
A sua personalidade cria conexão
Escrever dessa forma traz pessoalidade ao texto.
É justamente essa sensação de que existe uma pessoa real do outro lado da tela que cria conexão com quem está assistindo. As pessoas se conectam com pessoas, não com textos perfeitos.
Você não precisa conquistar o direito de compartilhar as suas ideias. Elas já são únicas porque pertencem à única pessoa que viveu exatamente a vida que você viveu.
Entusiasmo é contagiante
Existe mais um ingrediente que fortalece o seu estilo: o entusiasmo.
Pense no Serjão dos Foguetes. Se ele apenas explicasse fatos sobre a NASA de maneira neutra, provavelmente pouca gente prestaria atenção.
Mas a empolgação com que ele fala faz você querer continuar ouvindo, mesmo que nunca tenha se interessado por exploração espacial.
As pessoas sentem a sua paixão
Muitas vezes o público nem está interessado no assunto em si.
O que desperta curiosidade é ver alguém completamente apaixonado por aquilo. A pergunta que surge é: “O que existe de tão fascinante nesse assunto para deixar essa pessoa tão empolgada?”
O entusiasmo é contagiante. Quando você demonstra interesse genuíno pelo tema, aumenta muito a chance de transmitir esse interesse para quem está assistindo.
Aceite a sua própria voz
Quem escreve é você.
Por isso, permita que as suas ideias apareçam no texto. Você só vai encontrar a sua voz escrevendo, relaxando e aceitando que os primeiros parágrafos dificilmente serão bons.
Continue escrevendo. Lá pelo terceiro ou quarto parágrafo, sua personalidade começa a aparecer naturalmente. É nesse momento que o seu verdadeiro estilo deixa de ser algo que você procura e passa a ser algo que simplesmente acontece.