Aproxime o viewer de você
A maioria dos trechos escritos pode ser cortada pela metade sem perder informação e sem perder a sua voz na escrita.
O trabalho da reescrita é justamente encontrar tudo aquilo que pode ser jogado fora. São palavras, expressões e construções que ocupam espaço, mas não acrescentam nada à mensagem. Como vimos na aula anterior, expressões como “mulher muito linda” ou “arranha-céu alto” são exemplos claros desse tipo de excesso.
Todos esses excessos criam uma distância entre você e a pessoa que está assistindo ao seu vídeo. E esse é exatamente o efeito que você quer evitar.
Escreva como você fala
Quanto mais próximo o viewer sentir que está de você, maior será a identificação.
Ele deixa de enxergar um narrador distante e passa a ver uma pessoa comum, alguém de carne e osso, que fala de maneira natural e compartilha as próprias ideias. Essa sensação cria conexão e aumenta a chance de a pessoa continuar assistindo e se inscrever no canal.
Sempre que terminar um trecho do roteiro, faça uma pergunta simples para si mesmo: “Eu falaria isso para um amigo?” Se a resposta for não, provavelmente existe alguma palavra que pode ser substituída ou removida.
Seu roteiro deve parecer uma conversa
Não dialogue com uma pessoa quando você poderia simplesmente conversar com ela.
O seu roteiro precisa soar como uma conversa entre você e o seu melhor amigo. Tudo o que você disser deve parecer natural, sem frases artificiais ou construções que ninguém usaria no dia a dia.
Pense em um dentista. Quando o filho dele machuca o joelho, ele não pergunta se a criança está “experimentando dor”. Ele simplesmente pergunta: “Dói?” A ideia é exatamente a mesma, mas a segunda forma é muito mais simples e direta.
Palavras curtas são mais fortes
Sempre que existir uma palavra menor que transmite a mesma ideia, escolha a menor.
Em vez de “assistência”, use “ajuda”. Em vez de “inúmeros”, use “muitos”. Em vez de “implementar”, use “fazer”. Em vez de “somente”, use “só”. Em vez de “conhecido como”, use “chamado”.
Na maioria das vezes, palavras curtas tornam a leitura mais rápida e deixam o texto muito mais próximo da linguagem natural.
Não diga que você vai dizer
Existe outro tipo de excesso muito comum.
Expressões como “vale a pena destacar que”, “é interessante observar que” ou “devo acrescentar que” apenas avisam que alguma informação importante está chegando. Mas, se ela realmente é importante, basta dizer a informação.
Você não precisa anunciar que vai destacar alguma coisa. Apenas destaque.
Corte tudo o que puder
O mesmo vale para construções longas que podem ser substituídas por palavras simples.
Em vez de “com a possível exceção de”, diga apenas “exceto”. Em vez de “devido ao fato de”, diga “porque”. Em vez de “com o propósito de”, diga simplesmente “para”.
Por exemplo, ninguém fala: “Vou à casa dele com o propósito de jogar videogame.” O natural é dizer: “Vou lá para jogar videogame.” A informação continua exatamente a mesma, mas a frase fica muito mais leve e muito mais fácil de entender.
O olhar de colchetes
Eu gosto de usar uma técnica que chamo de olhar de colchetes.
A ideia é revisar o texto colocando entre colchetes tudo aquilo que pode ser eliminado. Cada palavra ou expressão marcada é um possível excesso que será removido na próxima versão do roteiro.
Esse processo faz você enxergar o texto de maneira crítica e perceber quantas palavras estavam ocupando espaço sem realmente ajudar a transmitir a ideia.
Um exemplo de reescrita
Vou pegar um trecho do meu próximo roteiro para mostrar como funciona esse processo.
A frase original dizia algo como: “Kaneki é um cara gentil que gosta de ler e arrumou um encontro.”
Quando começamos a analisar palavra por palavra, percebemos que vários elementos podem ser eliminados. Não preciso dizer que ele é “um cara”, porque o próprio nome já deixa isso implícito. Também posso trocar “que gosta de ler” por uma única palavra: leitor.
Só com essas mudanças, a frase já fica menor e transmite exatamente a mesma ideia.
Toda palavra precisa ter uma função
Depois da primeira redução, ainda é possível continuar refinando.
No contexto daquele vídeo, por exemplo, o fato de Kaneki gostar de ler não era importante naquele momento da história. Então até a palavra “leitor” podia ser removida, deixando apenas a informação realmente relevante para aquele trecho.
O resultado final ficava algo como: “O gentil Kaneki tem um encontro.”
Perceba que a frase ficou muito menor, mas continua entregando exatamente a informação que o viewer precisa saber naquele momento.
Corte pensando no objetivo do vídeo
Esse é um ponto muito importante.
Uma informação não precisa ser removida porque ela é ruim. Ela precisa ser removida quando não ajuda o objetivo daquele trecho do roteiro. Se mais tarde essa informação se tornar importante, basta adicioná-la novamente no momento certo.
Escrever também é decidir o que não dizer. Quanto menos distrações você colocar no caminho do viewer, mais forte será a mensagem principal.
Mais um exemplo
Vamos pegar outra frase.
“Um acidente o transformou em um ghoul, uma criatura que parece humana, mas não consegue sobreviver sem carne humana e possui kagunes, esses membros que eles usam como arma.”
Essa frase entrega bastante informação, mas também possui muitos excessos e explicações repetidas.
Aproveite o contexto
Se o título do vídeo já é Tokyo Ghoul, provavelmente a pessoa já sabe o que é um ghoul.
Nesse caso, talvez nem seja necessário repetir essa palavra. Em vez de explicar tudo novamente, basta dizer que um acidente o transformou em uma criatura que precisa comer humanos e possui um membro extra.
Além de reduzir o tamanho da frase, você ainda torna a leitura muito mais fluida.
Explique apenas o necessário
Enquanto reescrevia esse trecho, percebi que algumas informações podiam ser substituídas por outras ainda mais úteis.
Em vez de explicar detalhadamente o que são kagunes, por exemplo, fazia mais sentido dizer que aquele membro extra é formado pelas mesmas células que deixam o corpo do ghoul blindado. Assim, uma única frase já transmite mais informação e prepara melhor o viewer para o restante do vídeo.
Perceba que o objetivo da reescrita não é apenas cortar palavras. É encontrar uma forma melhor de transmitir a mesma ideia.
O processo nunca termina na primeira versão
Quando comparei a frase original com a versão reescrita, consegui reduzir bastante o texto e ainda adicionar uma informação nova.
Mesmo assim, tenho certeza de que aquela frase ainda pode ser melhorada. Esse é justamente o processo da reescrita: revisar, comparar, cortar, reorganizar e simplificar até que cada palavra realmente mereça estar ali.
É por isso que a maioria dos rascunhos pode ser reduzida em cerca de cinquenta por cento sem perder informação e sem perder a personalidade de quem escreveu.
Aprenda a jogar coisas fora
Se existe uma lição que eu gostaria que você levasse desta aula, é esta: aprenda a encontrar os excessos e elimine-os sem dó.
O roteiro de Tokyo Ghoul que estou escrevendo ainda vai passar por muitas revisões, e eu quero gravar esse processo para disponibilizar aqui na Próxima Peça. Porque escrever bem não é colocar mais palavras no papel. Escrever bem é saber exatamente quais palavras merecem continuar nele.